Tocantins tem potencial para o mercado bovino, mas não existe programa para o desenvolvimento do setor, afirma consultor

O consultor em gestão estratégica e operacional junto à cadeia produtiva da carne bovina brasileira, Celso Ricardo, durante um ano e meio prestou consultoria em um frigorífico e à pecuarista em Araguaína

O consultor em gestão estratégica e operacional junto à cadeia produtiva da carne bovina brasileira, Celso Ricardo, durante um ano e meio prestou consultoria em um frigorífico e à pecuarista em Araguaína. Ele afirmou que a região tem grande potencial para a atividade, mas que no Tocantins não existe programa para o desenvolvimento do setor.

Desenvolvendo trabalhos na Austrália, Estados Unidos, China, Paraguai, Caribe e Brasil, Ricardo enfatizou ainda que não existe desenvolvimento junto ao negócio da carne bovina sem entendimento de mercado.

Confira a íntegra da entrevista do consultor em gestão estratégica e operacional junto à cadeia produtiva da carne bovina brasileira, Celso Ricardo, sobre a carne bovina brasileira, concedida ao Portal Araguaína Urgente.

Portal Araguaína Urgente: O consultor em gestão estratégica e operacional junto à cadeia produtiva da carne bovina brasileira, Celso Ricardo, durante um ano e meio prestou consultoria em um frigorífico e a pecuarista em Araguaína. Ele analisou o potencial da região na atividade. Celso Ricardo: Estive atuando na região de Araguaína por um ano e meio e foi possível constatar que eu estou em uma região com grande potencial para a produção de carne bovina. Porém, assim como em todo o Brasil, é preciso evoluir. O foco hoje da cadeia produtiva da carne bovina na região, assim como no Brasil, é a pecuária de corte. Como os custos operacionais, seja nos frigoríficos como na pecuária de corte, vem aumentando ao longo dos anos, quanto melhor for a matéria prima, maior serão os aproveitamentos e menores serão os custos.

Portal Araguaína Urgente: Os animais apresentados na escala do abate estão oferecendo lucratividade? Celso Ricardo: Os animais que estão compondo as escalas de abate, não estão apresentando a qualidade ideal (rendimento de carcaça, acabamento de gordura e precocidade), desfavorecendo assim a busca por melhores mercados para a carne. A lucratividade que os pecuaristas e frigoríficos vem buscando, não tem nada a ver com peso dos animais, mas, sim, com os resultados pós abate. E para que esses resultados melhorem, é preciso inicialmente investir no campo. Precisamos oferecer melhores condições para que o pecuarista da região tenha mais acesso à genética, ao manejo ideal e ao melhor pasto. Só assim, vamos conseguir aumentar o giro na propriedade rural e o principal, vamos conseguir melhorar a qualidade dos animais no pasto, favorecendo, assim, o melhor negócio da carne frente aos melhores mercados no Brasil e no mundo. E, quando volto minha atenção para os frigoríficos, vejo na gestão o maior problema das empresas do setor. Não podemos mais nos preocupar com volume, precisamos focar em qualidade. Quanto melhor for a qualidade, melhor serão os resultados.

Portal Araguaína Urgente: Como está dividido esse mercado?
Celso Ricardo: O mercado é dividido em três tipos de negócios para a carne bovina “in natura”: o mercado de commodities, que hoje é o maior mercado no Brasil, porém, pela alta de competitividade e baixa qualidade dos produtos, não oferece uma lucratividade capaz de sustentar melhores números para o setor; temos o mercado dos produtos classificados que já tem um melhor resultado, oferecendo margens melhores, porém, esse mercado exige um produto com maior qualidade. E o mercado dos cortes especiais, que hoje já representa mais de 20% do mercado nacional, mas que exige uma matéria prima diferenciada e que hoje na região de Araguaína está em falta.

Portal Araguaína Urgente: Como está o mercado da carne bovina em nível nacional? Celso Ricardo: Para mim, esse será o ano da carne bovina para o Brasil. Porém, precisamos ter a consciência de que precisamos mudar a nossa gestão a nível de Brasil e melhorar o nosso entendimento com relação ao posicionamento do consumidor quando o assunto é o consumo. O mercado da carne não é soberano. Muitos gostam de dizer ao contrário, porém eu discordo completamente. O mercado da carne nos oferece condições para que possamos definir nosso planejamento estratégico com base no resultado que cada mercado pode oferecer. Os frigoríficos precisam fazer e entender as respostas quando o assunto é o mercado da carne que são: para quem eu vou produzir, ou seja, quem é meu público alvo? Qual a demanda desse para atender esse público? E qual a minha capacidade de produção para atender esse consumidor? O mercado da carne no Brasil, assim como no mundo, está muito bem definido, porém, se nós não tivermos matéria prima, agora, sim, em volume e qualidade, não vamos conseguir atender nenhum desses mercados com qualidade e lucratividade.

Porta Araguaína Urgente: O mercado mundial segue em crescimento Celso Ricardo: Sim. O mercado mundial segue em crescimento, porém precisamos melhorar a nossa representatividade frente a esse mercado que é muito fraca. Hoje o Brasil comercializa carne bovina com a China a U$ 2,33 kg, enquanto a Austrália comercializa a U$ 16,00. Isso tudo pela qualidade a carne australiana é claro, mas a representatividade e o marketing desse país frente ao mercado mundial faz toda a diferença. E o mais importante, a Austrália desenvolve um trabalho baseado em cima da sua cadeia produtiva.

Portal Araguaína Urgente: E o Brasil? Celso Ricardo: O Brasil não possui uma representatividade forte e nem um trabalho focado na nossa cadeia produtiva, mas, sim, associações e sindicatos que representam os interesses dos seus associados acabam fazendo as horas frente ao mercado mundial, deixando de lado os interesses de um setor para ser atendido apenas os interesses de poucos. O mercado mundial está aberto, e o Brasil, tendo em vista as condições que tem (área favorável, clima e rebanho), pode ser, eu disse, pode ser o maior produtor de carne bovina e ser o celeiro do mundo, mas ainda estamos longe e precisamos começar a olhar mais para dentro do Brasil. Precisamos fomentar esse setor de maneira correta, precisamos achar o equilíbrio e estabilidade, para ai, sim, projeto melhores resultados para pecuaristas e frigoríficos, a partir dos resultados frente aos melhores mercados para a carne bovina brasileira.

Portal Araguaína: Como está o mercado da carne bovina no Tocantins?Celso Ricardo: Bem, aqui eu vejo, um potencial tremendo para a desenvolvimento da cadeia produtiva da carne bovina. Porém, assim como no Brasil, não existe nenhum programa para o desenvolvimento do setor (palestras, debates, seminários, etc.) com foco direto para o mercado. Não existe desenvolvimento junto ao negócio carne bovina sem entendimento de mercado. Como eu vou pagar mais pela arroba, se o preço de venda não cobre os custos, não há possibilita maior margem. E é ai que está o problema. A pecuária de corte trabalha focada em volume, ou seja, pensando de uma forma e os frigoríficos precisam trabalhar com qualidade. E se nós não conseguirmos aproximar os dois lados do negócio, não vamos conseguir achar o ponto de equilíbrio no preço da arroba e nem no preço de venda para a carne. E a cultura do boi inteiro que existe aqui no Estado do Tocantins precisa mudar urgentemente. Esse tipo de matéria prima não agrega valor aos frigoríficos. E é preciso que se diga que as margens dos frigoríficos, quando os mesmos abatem animais de mais qualidade, melhoram muito, favorecendo a ele, frigorífico, condições de, além de pagar melhor o pecuarista, o bonificar, caso seus animais tenham as qualidades e ofereçam uma carcaça diferenciada para os frigoríficos comercializarem as suas produções junto a mercados mais exigentes no Brasil e no mundo. Os resultados existem e os frigoríficos podem pagar melhor pela carcaça bovina, porém a qualidade das carcaças precisam ser melhores.

Portal Araguaína Urgente: Quais as perspectivas para a pecuária de corte e o que precisa mudar? Celso Ricardo: As perspectivas são as melhores possíveis. Mas esse setor precisa ser melhor trabalhado. O Brasil precisa de um maior volume de animais para o abate. O rebanho bovino brasileiro ainda é uma incógnita. Não temos um número definido para o rebanho para corte, uma hora é um número e outra hora é outro. Mas o que importa é que precisamos melhorar a assistência para esse setor. O Brasil vive extremamente da sazonalidade e do oportunismo frente aos mercados, não existe planejamento. Como eu vou investir em genética, se não sei se vou ser recompensado? Como vou melhorar o meu manejo, se os frigoríficos pagam o mesmo preço de arroba para animais bons e ruins? Precisamos fazer com que o pecuarista tenha um maior conhecimento sobre os mercados para o consumo da carne.

Portal Araguaína Urgente: O que poderia ser feito? Celso Ricardo: Se ele, o pecuarista, souber exatamente o que o frigorífico busca, ele vai conseguir investir melhor, em consequência disso, o giro na propriedade rural vai ser melhor e os resultados também vão ser melhores. O foco do Brasil hoje está na pecuária de corte. Para sermos mais produtivos, não precisamos abater um animal a mais do que é abatido, mas, sim, precisamos ter uma maior produção de carne por animal abatido e, para termos mais qualidade, precisamos investir em genética, a partir das predominâncias que já existem em cada região.

Portal Araguaína Urgente: Qual o posicionamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), uma vez que não está sendo favorável para o desenvolvimento da carne no Brasil? Celso Ricardo: Para mim, muito fraco. Se nós formos buscar ao longo dos anos, a partir dos nomes que estiveram exercendo essa função de ministro da agricultura, não é possível encontrar um planejamento estratégico se quer, voltado para o desenvolvimento da pecuária de corte no Brasil. Todos vivem da sazonalidade do mercado. E pior de tudo, de uma maneira muito sensata, é possível ver mais equívocos do que benefícios para o setor, tendo em vista o posicionamento desse órgão. O Mapa, hoje, tem muita pouca atuação junto à cadeia produtiva da carne bovina. A Tereza não vem oferecendo uma condição favorável para o desenvolvimento do negócio carne bovina. O Mapa vem, de uma forma muito clara, se afastando do setor e de suas responsabilidades. Medidas sem embasamento prático vem sendo tomadas que não focam nem na pecuária e nem nos frigoríficos, mas, sim, em uma pequena parte do setor.

Portal Araguaína Urgente: Essa atitude é negativa? Celso Ricardo: Estamos focando na retirada da vacinação da febre aftosa de uma maneira irresponsável e que pode comprometer um trabalho de anos. Estamos criando programas que não agregam nada para o desenvolvimento da cadeia da carne bovina brasileira. Como disse, o momento agora não é de olharmos para fora do Brasil, mas, sim, para dentro. Precisamos acabar com as dúvidas sobre o mercado de exportação, precisamos mostrar que esse mercado é possível, sim, ser alcançado por pequenos e médios frigoríficos. Precisamos usar os estudos da Embrapa Pecuária de Corte para desenvolver e melhorar a genética do rebanho nacional. Precisamos ser efetivos na busca pelo melhoramento das condições de quem produz. E o Mapa está fazendo exatamente o contrário. Na realidade, a gestão do Mapa precisa estar mais voltada para dentro do Agronegócio e não apenas em papéis. E mais, é possível, sim, dobrar a capacidade produtiva de carne bovina do Brasil e um curto espaço de tempo, é possível melhorar os resultados dos negócios que envolvem a produção de carne bovina, basta querer e agir corretamente. Podemos ser uma referência em produção de carne bovina, diferentemente do que é hoje, onde o Brasil é mais procurado pela necessidade do mercado do que pela qualidade do nosso produto.

Portal Araguaína Urgente: Como está sendo vista a oscilação do preço da carne? Celso Ricardo: Eu não vejo como normal, aliás, nunca vi e nem aceitei isso. O que está faltando para o Brasil, em especial para a cadeia produtiva da carne bovina, é achar o ponto de equilíbrio, entre oferta e procura. O mercado nacional consome em médio 80% de toda a carne bovina produzida no país e o mercado internacional vem crescendo. A gestão do Mapa, agindo de forme ineficiente, vem ajudando para que não consigamos atingir esse ponto de equilíbrio. Nos últimos anos por exemplo, o Brasil vem abatendo muita vaca, afetando diretamente o ciclo produtivo, encarecendo a reposição no campo. Logo, o aumento das exportações de gado, também contribui para a falta de animais para o abate.

Portal Araguaína Urgente: Então qual seria a saída para o pecuarista?Celso Ricardo: Eu sou defensor da exportação de gado vivo, é mais uma opção para o pecuarista comercializar seus produtos. Mas nós precisamos, antes mesmo de sair pelo mundo tirando fotos e assinados acordos, entender o que de fato acontece no Brasil. Não podemos ser irresponsáveis ao ponto de aumentarmos a desestabilidade interna, com medidas e ações focadas nos interesses de poucos, provocar o caos no mercado interno, elevando os preços da arroba de uma forma que nem o mercado da China estava pagando a conta e, o pior, fazendo com que a carne no mercado interno atingisse picos de preços que fez com que o consumidor fosse buscar novas alternativas no mercado. Hoje no Brasil, o Mapa tem que assumir o seu papel frente ao Agro e começar a agir de forma eficiente, criando condições favoráveis para que pecuaristas e frigoríficos consigam melhorar seus resultados sem que a instabilidade aconteça.

Portal Araguaína Urgente: Como está a gestão dos frigoríficos em nível nacional? Celso Ricardo: Analisando os últimos 15 anos das operações que compõem a cadeia produtiva da carne bovina, é possível visualizar uma mudança comportamental em todas elas. Porém, a gestão dos frigoríficos precisa evoluir mais. Os gestores ainda atuam de uma forma a valorizar uma ou outra operação, deduzindo que o sucesso de suas empresas dependem de uma única situação ou profissional. Não existe mais resultado positivo, apenas com uma determinada operação sendo bem resolvida. Os custos aumentaram consideravelmente e as margens diminuíram, mas esse cenário pode ser mudado, se conseguirmos ser mais produtivos, lucrativos e sustentáveis. Ter um bom capital financeiro não garante sucesso nos negócios. Os gestores precisam entender que a sua visão sobre o mercado não é soberana e que suas empresas precisam se adequar a partir do planejamento estratégico traçado lá no início das operações. Eu afirmo que todos os frigoríficos e a cadeia produtiva da carne bovina brasileira conseguem atingir resultados favoráveis em torno de 10% a 15% sem gastar um centavo a mais, apenas com uma reestruturação geral. Muitos frigoríficos ainda não conseguem visualizar os resultados gerados em suas operações de compra de gado, indústria e comercial. E isso é o grande, ou se não, a maior barreira para o desenvolvimento das empresas frigoríficas.

Portal Araguaína Urgente: A pecuária de corte precisa ser fomentada, então? Celso Ricardo: Como disse, o foco para o desenvolvimento da carne bovina no Brasil é a pecuária de corte. Precisamos fomentar esse setor como nunca. Precisamos fazer com que o ciclo produtivo dentro das propriedades rurais volte a acontecer novamente (cria, recria e engorda). Mas, para que isso aconteça, o Mapa precisa ser mais atuante e responsável dentro de suas responsabilidades. Não precisamos nos preocupar com o mercado externo diretamente, precisamos melhorar é a nossa representatividade e o marketing brasileiro. Temos todos os fatores que um país pode ter para produzir carne de qualidade e por que não conseguimos ainda? Existe um estudo da ONU, onde foi listado os países que podem ser de fato os verdadeiros celeiros do mundo até 2050, tendo em vista uma necessidade de consumo alta, baseada em uma população mundial que vai estar entre 10,5 bi e 11 bilhões de pessoas. E a china e o Brasil chegam no final como os grandes países para produzir alimento para o mundo.

Portal Araguaína Urgente: O que está sendo feito de fato para conquistar isso? O Brasil está trabalhando com planejamento, entendimento, organização e eficiência? Celso Ricardo: ainda não. Precisamos ser melhores, precisamos parar de viver para as mídias e começar a agir nas estradas, no campo, nas indústrias e nos mercados. A Austrália tem na sua bandeira as raças predominantes no país e é essa imagem que eles vendem – e nós? temos duas associações que representam os interesses de seus associados e não estão errados, representando o Brasil frente ao mercado mundial. E ai eu pergunto: quando os pecuaristas e frigoríficos que não fazem parte desse pequeno grupo vão ver a prosperidade e a lucratividade? Nunca. Precisamos mudar a gestão interna urgente, o Brasil precisa deixar de ser o maior obstáculo para a cadeia produtiva da carne bovina nacional.

Portal Araguaína Urgente: Investimento é sinônimo de lucratividade?
Celso Ricardo: Hoje, o Brasil não precisa se preocupar com investimento em tecnologia e ferramentas de gestão para aumentar sua lucratividade. Precisamos voltar a entender ou reaprender como trabalhar com a produção de carne bovina. Eu afirmo a você que, se o Brasil se organizar corretamente, podemos aumentar a produtividade e a lucratividade do setor entre 10% a 15% somente com uma reestruturação, sem precisar investir um centavo. Entendimento, domínio de negócio, orientação, conhecimento e informação não custa o dinheiro, mas, sim, vontade. E é isso que está faltando para o Brasil, vontade de fazer as coisas dar certo.

(Por Raimunda Costa)

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